7.9.10

Hoje a caneta é tua

Fez-se silêncio. Outra coisa não seria de esperar afinal, aquelas palavras cruas que saíram da boca dele eram a coisa mais previsível do mundo. Ela bem que defende que o coração masculino é mais pequeno e frio que o das mulheres. Basta comparar os textos divulgados todas as semanas naquele grupo de escritores. Ela, a escritora feminista, sempre com discursos intelectuais que defendem a igualdade entre géneros, agarrou na chávena de café que já ali estava a arrefecer há dez minutos. Gesto este que serviu para disfarçar a desilusão das palavras do escritor de gelo. O seu texto desta semana nada agradara à bela escritora feminista que secretamente, por detrás do ódio de estimação escondia o amor inevitável no qual nada acreditava. A escrita masculina era brilhante, seca, prática, cheia, simples. O escritor de gelo era genial. Gostem ou não dos seus ideais, era tudo escrito de maneira inteligente e clara, a sua mente não funcionava como a mente de qualquer um de nós. Levantou-se para ir buscar um copo de água no pequeno bar ao fundo da sala enquanto se afastava do grupo de pessoas e espiava a escritora feminista, ruiva e linda pelo canto do olho. Era definitivamente algo que também ele queria esconder. Em todas as reuniões, nos textos destes dois brilhantes escritores estavam, muito envolvidas naquela dança de palavras, frases intencionadas a atacar e a contra-atacar cada um. Aquele grupo de sete pessoas acabava sempre transformado em duas. O organizador anunciara a noite por terminada. O escritor de gelo afastara-se do bar, pousara um pequeno guardanapo amarelo na mesa da escritora e saíra porta fora sem uma única troca de olhares. A escritora feminista, encarregue de fechar a sala de reuniões, sozinha e ainda sentada à mesa abrira delicadamente o guardanapo, "Bilhete número trinta e quatro. Hoje, como minha vez de falar, tenho o direito de dizer silenciosamente que estás bela, minha querida. Mas amanhã, em voz alta, vou continuar a atacar. E amanhã também, bilhete número trinta e cinco, é a tua vez de me amares, mais uma vez em silêncio".  Sim, é só mais uma forma de amor.

3 comentários:

marianalolita disse...

ainda bem fico muito contente :D

Gonçalo disse...

epa é o que eu digo :P

gosto e pronto xD

Sophya disse...

Amor silenciosamente atacante.

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